Isabella e Cabrini fazem sucesso na TV sensacionalista

Jornalismo adora os excessos e as sensações. Ainda mais quando se trata da cobertura de crimes misteriosos ou denúncias ainda mais misteriosas contra seus próprios profissionais. Sempre foi assim. É da tradição histórica do meio. Os primeiros jornais na França, Inglaterra e EUA, ainda no século XVII, já davam enorme destaque aos assassinatos violentos e macabros. Também buscavam denúncias que destruíssem a reputação ou a credibilidade de colegas “novidadeiros”.  

E para isso, valia tudo. Mentiras e verdades se confundiam nos crimes e nas denúncias. Jornalista adora falar mal de tudo. Das pessoas, das instituições, do próprio jornalismo e ainda mais dos… jornalistas. Principalmente, daqueles profissionais  que trabalham para os jornais… concorrentes.  Ou seja, adoramos o trágico, e veneramos a autoflagelação. Nenhuma outra indústria ou prática profissional se regozija tanto com o excesso de notícias ruins. Ainda mais, quando essas notícias tratam das nossas ousadias ou mazelas. Tanto faz. Sempre foi assim. O jornalismo não mudou muito. Hoje, em tempos de TV, o problema aumenta de proporção. Intensificaram-se os excessos e aprofundaram-se as sensações. 

Armadilhas e heróis
Televisão consegue ampliar tudo. O que há de melhor e pior nas pessoas e no próprio meio. A cobertura de uma final de Copa do Mundo, por exemplo, é insuperável na TV. Tudo de bom. Mas a cobertura de crimes hediondos ou as armadilhas do jornalismo investigativo são terríveis para o meio televisivo. 
A necessidade de buscar muitas e boas imagens confirma os tropeços e excessos. E a superficialidade da TV condena investigações mais sérias, profundas e demoradas.  

Investigação jornalística na TV não se resume à busca de fatos. A necessidade de  imagens, de muitas e boas imagens para provar a veracidade das notícias tende a comprometer a prática jornalística. Em busca de notícias e sensações, o jornalista faz sucesso, conquista inimigos, fortuna e acaba virando notícia.  

O mal maior do jornalismo de TV é tendência ao excesso e o culto à celebridade. Pra que tanta notícia sobre quase nada? Enquanto isso, repórteres famosos se transformam em fonte de não de informações, mas de sensações, algumas boas, outras ruins. O público adora respeitar, venerar e invejar os jornalistas famosos. Os colegas adoram construir e destruir os mitos e os heróis (sic) da profissão. Sempre foi assim.  

Sangue e sucesso
Por outro lado, o jornalismo na TV é  atividade altamente lucrativa, mas muito perigosa. Em televisão, a busca do sucesso costuma ultrapassar a confirmação dos fatos. Tudo para aparecer na telinha. Ou como dizia uma colega norte-americana, “nem sempre certa, mas sempre no ar”. Em TV o mais importante é estar sempre em evidência. Falem mal, mas falem de mim. O meteórico retorno do Aqui Agora e da “vergonha” do Boris Casoy confirmam a tese. Jornalismo de TV adora os excessos.
 E as manchetes do noticiário confirmam a cumplicidade do público com a cobertura de exageros:   

Telejornais crescem até 46% com caso Isabella

Segundo a FSP, “O trágico caso Isabella está fazendo a felicidade dos telejornais. A audiência desses programas cresceu até 46% na primeira quinzena deste mês em relação ao mesmo período de março…O sucesso explica em parte o investimento na cobertura. A Globo mobilizou 18 repórteres, 8 produtores e 20 cinegrafistas… A Record informa ter deslocado para a cobertura 30 repórteres e produtores e 20 cinegrafistas…Na Band, entre três e dez equipes (repórter mais cinegrafista) cobrem o caso, dependendo do noticiário, além de cinco produtores. Até o SBT priorizou Isabella. Mobilizou quatro repórteres e sete cinegrafistas.”Mas tem mais manchetes sobre os excessos da cobertura.  

Seria comodismo ou falta de assunto?
 
Rede Globo dedica grandes espaços para o caso Isabella,
‘Caso Isabella virou novela doentia', diz antropólogo
Show da imprensa na morte de Isabella
Mas além dos crimes misteriosos, o jornalismo também adora as denúncias:  Cabrini detido para esclarecimento em São Paulo,
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Cabrini: "Trabalharei com o mesmo empenho"
 

Sucesso do sensacionalismo
Na TV, tudo vira “sensação”. Nada faz muito sentido, mas o “muito” é sempre bom. Ao assistir aos excessos do noticiário de TV sobre o assassinato de Isabella, temos a impressão que sabemos de tudo e que já estamos prontos para prejulgar os acusados. 

O excesso detesta a razão. A cobertura da TV nos dá a  “impressão” de que já sabemos tudo sobre tudo e todos. Privilégio do excesso sem profundidade.  

TV é muito boa para nos entreter. Ela nos ajuda a sobreviver. É ótima para “matar o tempo”, para nos retirar da realidade. Mas a TV é péssima para nos fazer entender. Tem grandes dificuldades para explicar o desconhecido e misterioso e não consegue evitar os tais excessos que beiram sempre o “ridículo”.  

É um show de cobertura onde o público não é poupado dos mínimos detalhes. Dos mais macabros aos mais inúteis, o objetivo é buscar a sensação, a atenção e reação do público pelos sentidos, pela sensação, pelo “sensacionalismo”. Centenas de profissionais com equipamentos sofisticadíssimos despendem enormes fortunas e grande quantidade de tempo no ar para não dizer nada. Preferimos as sensações às informações. Um show de excessos. Há muito tempo não vejo tanto jornalista batendo a cabeça para não dizer nada que preste. Uma cobertura macabra de um crime misterioso. Um jornalismo de TV em busca de sensações e muito sangue.  

Verdade atrapalha
Mas nem sempre “sensacionalismo” foi algo ruim para o jornalismo. Quando a prática da profissão ainda era bem elitista, desinteressante, burocrática e oficial, essas notícias sensacionais indicavam um bom caminho a aproximação e identificação com o público. 

A imprensa se reinventava pelas informações com sensações. Ênfase nas sensações.  Investia-se em um novo jornalismo para substituir o modelo anterior, muito opinativo, partidário, dogmático e chato. Criava-se um novo jornalismo mais popular, mas os riscos eram enormes.

Em vez de formar, informar ou (e) doutrinar o público, a imprensa passava a oferecer um cardápio a la carte, um jornalismo ao gosto do freguês, quero dizer, do leitor. Gostam e querem sangue, muito sangue? Tudo bem. Nós também fornecemos! O problema, no entanto, é a quantidade e o equilíbrio.  Adoramos obter informações, muitas informações, todas recheadas de sensações. Por algum motivo que ainda desconhecemos, preferimos as notícias e denúncias com muitos excessos e exageros. Na TV sensacional, uma televisão “espreme que sai sangue”, a verdade é dispensável. Só atrapalha.   

Antonio Brasil 
É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a "Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais". Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica", "O Poder das Imagens" da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado "Antimanual de Jornalismo e Comunicação" pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão.