O jornaleiro gaúcho, o verdureiro tcheco e o conluio ativo

Marcilene Forechi –  O que o jornaleiro de Porto Alegre que deixou de vender a Veja e um verdureiro da antiga Tchecoslováquia têm em comum? Muitas pessoas ficaram conhecendo Fabio Marinho, o jornaleiro, depois que ele decidiu tomar uma atitude frente ao jornalismo de qualidade e confiabilidade duvidosas praticado por Veja e outras publicações da Editora Abril. A explicação do rapaz é simples: não dá para compactuar com a publicação, por isso, resolveu fazer o que pode ser feito.

Já o verdureiro tcheco pendurou na vitrine de sua loja uma placa com a mensagem “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Ao contrário do que sugeria a atitude dele, não havia intenção de compartilhar a mensagem ou concordar com ela. A placa chegava à loja com as verduras e expressava a ideologia do sistema comunista vigente na época. Para o verdureiro, pendurar a placa e se submeter à dinâmica interna de um sistema político significavam dizer: “Eu sei o que devo fazer; eu ajo conforme esperam que eu aja; logo, tenho o direito de ser deixado em paz”.

A história do verdureiro foi lembrada pelo escritor tcheco Václav Havel [primeiro presidente da República Tcheca após a Revolução de Veludo, de 1989] em ensaio publicado na Europa Oriental no fim da década de 70 e mencionado no livro A sabedoria do caos para ilustrar o que ele chamava de “poder dos impotentes”. Havel desafiou com seu ensaio a resposta tradicional de enfrentamento do poder com o poder. Ele percebeu que o poder em seu país e em outras organizações e sistemas mundiais não é mantido apenas pelas formas tradicionais de liderança hierárquica.

Havel sugeriu que o poder é perpetuado pelo conluio ativo dos representantes menos poderosos da sociedade atuando no que ele chama de automatismo. Voltando aos personagens citados no início desse texto, posso dizer que eles têm em comum uma atitude frente a situação que lhes desagrada. Mas, enquanto o verdureiro adere ao conluio e aparenta concordar com o estabelecido, contribuindo para que a situação continue a mesma, o jornaleiro de Porto Alegre inicia um movimento que se assemelha ao bater das asas de uma borboleta.

Ele diz não àquilo de que discorda, correndo o risco de retaliação e boicote por parte da Editora Abril e dos próprios clientes, que podem não aceitar as posturas editoriais da revista, mas podem condenar também a atitude de quem os impede de jogar o jogo e comprar toda semana um exemplar da publicação. Nos dias de hoje, não faltam exemplos da adesão ao conluio dos menos poderosos ou sem poder na sociedade.

A adesão dos jornalistas

O silêncio sobre os acontecimentos mais recentes no país – sanguessugas, mensalão, CPIs que acabam em pizza – aponta para o poder dos impotentes. É a falta de participação e a certeza de não termos poder que nos faz conferir cada vez mais poder a determinados grupos organizados, entre eles criminosos, que têm ou não imunidade para atuar livremente.

Os ataques em São Paulo, as rebeliões em penitenciárias pelo país, os seqüestros, as mortes de policiais, agentes e jovens das classes populares, o tráfico de drogas, tudo é tratado pela imprensa como crime organizado, como onda de violência, como ataque terrorista. Como se as palavras por si só tivessem algum poder. A pouca reflexão sobre o assunto também reflete o poder dos impotentes. A forma como cada um age individualmente gera uma influência sutil nas atitudes dos outros.

Sem o poder hierárquico de tomar decisões importantes, os jornalistas que trabalham nos grandes veículos também aderem ao conluio. A pouca participação nos movimentos sociais – nas comunidades ou nos sindicatos – é exemplo do poder impotente de uma categoria profissional que tem, entre outras premissas básicas, o compromisso com uma sociedade mais justa e democrática. Movidos por sentimentos dos mais diversos, estamos todos insistindo em pendurar nossas placas nas vitrines. E exercemos, silenciosamente, nosso poder de conferir poder.

Marcilene Forechi  é jornalista e mestre em Educação.