Padre Xavier critica editorial de A Gazeta e a mídia capixaba

Leia, na íntegra, a carta de Padre Xavier, militante dos Direitos Humanos, enviada ao editor executivo de A Gazeta, André Hess, como resposta ao editorial de ontem do jornal, dia 10/03, intitulado “A superlotação dos presídios e a imprensa”. Apenas um fragmento do texto foi publicado na sessão "Opinião do leitor" de A Gazeta desta quinta-feira.

Carta, na íntegra, de Padre Xavier:

“Prezado André,

Li e reli com muita atenção a matéria que você publicou no jornal A Gazeta do dia de hoje a respeito do sistema penitenciário. Adianto que sou assinante do jornal e faço da leitura do mesmo o meu primeiro ato do dia.

Confesso que fiquei perplexo a respeito de alguns trechos de sua matéria.

Em primeiro lugar, quero solidarizar com os bons profissionais da imprensa. Concordo com você em relação às acusações genéricas. Reconheço que em várias oportunidades o jornal se colocou à disposição dos militantes de Direitos Humanos para divulgar denúncias sobre violações de direito dentro das unidades prisionais. Eu, inclusive, várias vezes foi entrevistado sobre este assunto. O mesmo aconteceu em outros veículos da Rede Gazeta, como a CBN, Rádio Globo ES, Gazeta AM, TV Gazeta e Notícia Agora. Mas, ao mesmo tempo,  constatei que, em algumas oportunidades, o interesse da imprensa local para estes temas só se deu a partir do momento em que determinadas notícias eram noticiadas antes fora do Estado. É notório que os meios de comunicação local recebem grandes investimentos por parte do poder público par a serviços de propaganda. Isso deixa certa dúvida nos leitores quanto à liberdade dos mesmos, pois, normalmente, na lógica do mercado, nenhum prestador de serviços fala mal de seu cliente. Nas relações comerciais vale a máxima que "O cliente tem sempre razão". Não acha que esta dúvida seja legítima?

Quanto à possibilidade de exploração política dos fatos por parte da oposição, argumento este pontuado pelas autoridades e defendido por você, quero pontuar alguns elementos:

Primeiro: independentemente da exploração política, as violações existiram e continuam existindo. Falo como testemunha ocular que está presente semanalmente no sistema e que, por morar e trabalhar em bairros periféricos, tem a oportunidade de levantar informações, inclusive por parte dos agentes públicos que trabalham nas unidades e que têm medo de se manifestar publicamente.

Segundo: a exploração política não é o objetivo dos militantes de DH, pois, exceto raríssimas exceções, ninguém de nós visa cargo político e tenta tirar proveito dessa situação. A motivação de nossa luta é a defesa da vida e da dignidade humana. Também porque você está careca de saber que "preso" e “menor” não dão dividendos políticos e eleitorais visto que existe uma verdadeira campanha de criminalização dos defensores de DH que são tachados de “defensores de bandidos". Garanto a você que, se dessem votos, teríamos um monte de políticos ao nosso lado, fazendo coro conosco. Seria louco quem achar que vai ganhar a eleição defendendo os direitos humanos dos presos.

Terceiro: A Gazeta e os outros meios de comunicação local continuamente reproduzem cadernos e inserções publicitárias onde o Governo divulga as "Boas obras" que realiza. Neste caso você não acha que há exploração política de tudo isso em vista da reeleição ou da conquista de outro mandato em outros âmbitos? Porque se levanta a suspeita da exploração político-eleitoreira somente na hora em que se apontam os problemas e não quando são divulgados os “avanços”. Quanto se trata de divulgar os “bons resultados” pode-se usar, inclusive, o dinheiro público, até para fazer “propaganda enganosa”, para propaganda eleitoral antecipada, para promoção pessoal etc. Pelo contrário, quando se trata de divulgar os desafios aí o coro se levanta para apontar a tese da exploração política. A diferença que os detentores do poder têm dinheiro para comprar inteiras páginas, inclusive de A Gazeta, para falar de si mesmo, daquilo que fazem, das obras que realizam. Nós não temos esta possibilidade. A única alternativa para mostrar aquilo que efetivamente está acontecendo na vida do dia-a-dia é contar somente com a consciência ética daqueles profissionais (inclusive de A Gazeta) e os meios de comunicação que ainda acreditam no serviço público da imprensa, dando voz, sobretudo para quem não tem voz.

São mais de dez anos que atuo nesta área aqui no ES. Desde 1986 no Brasil. Foram inúmeras as tentativas por nossa parte de conversar com o poder público, mas exceto algumas exceções, não encontramos respostas. É por isso que buscamos "repetidores externos" de maior potência para dizer o que efetivamente está acontecendo no Estado.

Se nós fôssemos sabotadores do Governo, como somos definidos, deveríamos estar todo dia na porta da Gazeta para denunciar o que presenciamos nas unidades de saúde, nos hospitais públicos, no sistema penitenciário… onde,  o tempo todo, acontecem situações de desrespeito com a vida e a dignidade dos mais pobres.
Por último quero questionar o que o Governo vem amplamente divulgando: “Os fatos relatados se referem ao passado". As imagens divulgadas em rede nacional por uma emissora brasileira foram produzidas no Estado no segundo semestre do ano passado. Será que o segundo semestre de 2009 é já passado remoto? Os relatórios que estão sendo produzidos foram redigidos a partir de visitas realizadas nestes dias. Já visitamos as unidades novas que o Governo construiu. Já dissemos que, do ponto de vista arquitetônico, são boas, mas do ponto de vista da aplicação da Lei de Execução Penal e do Estatuto são um fracasso. Você sabia que no dia 28 de fevereiro de 2010, em inspeção com uma Juíza da Infância e da Adolescência da Grande Vitória, apreendemos no Despertar 1, modulo da UNIS  de Cariacica, atrás do armário dos monitores,  três porretes que, segundo relato dos adolescentes, seriam utilizados por agentes públicos para espancar os adolescentes? Você sabia que na mesma UNIS no dia 08 de fevereiro deste ano, um adolescente se enrolou em três colchões e se deu fogo por não agüentar mais a “opressão” (sic) dentro da unidade? Você sabia que na UNIS há vários adolescentes feridos por causa de brigas entre eles que aconteceram durante este ano?  Você viu as imagens publicadas no site do Século Diário de ontem referentes a setembro de 2009, quando, numa unidade nova, agentes atiram balas de borrachas contra presos nus colocados no pátio sem nenhuma reação por parte deles? Gostaria que você visitasse as unidades novas e conversasse com os presos para ver como disciplina é confundida com maus tratos  e humilhações. Se quiser, posso continuar a ladainha, mas vou parar por aí. Será que s omos nós que fazemos oposição ao Governo ou é a própria incompetência da máquina em resolver o problema que faz o jogo contra?  Estimo o seu trabalho e o dos outros profissionais de A Gazeta, mas pena que você optou somente em defender o Governo do Estado e não foi capaz de dizer nenhuma palavra de apoio aos militantes de DH que trabalham, sem opções eleitoreiras, para o bem da população e a serviço da verdade. No lugar de sublinhar o risco da exploração política dos fatos, deveria prevalecer a indignação diante das violações dos direitos humanos. Gostaria que este meu texto ocupasse o mesmo lugar de destaque que ocupou o seu, inclusive (estranhamente) na gazetaonline. De qualquer maneira, vou divulgá-lo na rede como forma alternativa de fazer ouvir a nossa voz”.

Saudações Fraternas
Pe. Xavier (padre Saverio Paolillo)