Trabalho e saúde na pandemia, um desafio à nossa própria humanidade

Maria Elizabeth Barros de Barros*

 

O trabalho, diante da pandemia provocada pela Covid 19, ocorre em cenários de alta pressão que contribuem para aumentar, ainda mais, a sensação permanente do gerenciamento capitalista do mercado que dita modos de trabalhar e produz doenças.

 

Em março de 2020 chegaram no Brasil notícias sobre um vírus altamente letal que acometia uma cidade da China. Apesar de muitos noticiários já anunciarem esse evento desde dezembro de 2019, ainda nos parecia uma possibilidade bem distante, mas não foi o que ocorreu. Iniciaram-se práticas de isolamento social.

Aulas canceladas nas universidades e nas escolas de ensino básico e médio, realização de reuniões on-line para a gestão dos diferentes espaços de trabalho, medidas de higienização constantes nos ambientes domésticos, cuidados extremos em caso de saída de casa, o que deveria ser feito, apenas, em situações de extrema necessidade.

Foi dada a partida para um período de incertezas e indeterminações ante a ameaça que se abateu sobre todo o planeta: estávamos, e ainda estamos, vivendo uma pandemia, palavra de etimologia grega que designa “o que se coloca sobre o povo”. Passamos a experimentar um corte no fluxo de um tempo das horas, dos minutos, dos segundos que nos tornam produtivos/as e consumistas.

Tal estado de coisas não é novidade.  As engrenagens do capitalismo neoliberal nos impõem limites, cada vez mais explícitos já há algum tempo, por meio de reiterações de normas restritivas e individualistas, que se expressam por uma “antipolítica”, esvaziando fóruns de diálogo na urbe.

Se política é vida ativa, essa se forja no encontro e no confronto de pluralidades, no debate livre em um espaço público. O que nos torna seres políticos é nossa força para agir, interferir e produzir grupalidade, ou seja, agir em comunhão. Logo, se o coletivo é sequestrado, estamos diante da antipolítica. Vai se delineando, assim, uma situação que configura um dos tantos cenários na esfera das problemáticas contemporâneas que tangem ao trabalho, pois não podemos desconsiderar as mais diversas situações de ultraexploração de trabalhadores/as pela intensa precarização das condições em que trabalham.

Merece destaque, também, os diversos autônomos do setor privado, muitos deles “uberizados”, bem como o enorme contingente de desempregados que a crise sanitária aumentará. Sem falar nas variadas nuances que o racismo, o sexismo e o capacitismo conferem a esse horizonte de questões, com força cada vez maior em tempos de pandemia. O empreendedorismo de si está em alta!

Além disso, o índice de desemprego chega a números alarmantes no Brasil (até o presente o momento, já temos, segundo dados do IBGE, mais de 13 milhões de trabalhadores/as desempregados/as), e o quadro que se desenha é de que muitos postos de trabalho não têm perspectiva de retornarem. Pensar os efeitos da pandemia nos mundos do trabalho já se apresenta, portanto, como um grande desafio: pensar no “futuro” do trabalho ou, dito de outro modo, nos mundos do trabalho no ‘pós-pandemia’.

Para essa análise, vamos definir um ponto de partida. No nosso entendimento, o trabalho humano é experiência e não se identifica com emprego ou assalariamento. Trabalhar consiste em (re)normatizar ambientes laborais e criar meios de vida para além das normativas definidas pelas organizações em que estamos vinculados/as. Isso demanda experimentação e criação de outras normas por parte de quem trabalha, experimentação que implica sempre certa transformação de si, dos modos de trabalhar e daquilo que se efetiva como produto desse processo. Sempre há, no exercício do trabalho, uma iniciativa dos trabalhadores/as que instaura uma relação modificadora das normas instituídas, o que nunca se faz sozinho.

O trabalho implica produção coletiva, é construção, no comum, de um mundo em que o sujeito pode viver essa experiência, mesmo naquilo que ela tem de desconhecido e inesperado. Trabalhar é fazer a gestão das variabilidades que comportam o viver. É gerir as adversidades inantecipáveis que surgem sempre que trabalhamos.

Assim, quando os humanos veem sua potência de criar normas no trabalho limitada, de forma que sua força criadora e autonomia sejam cerceadas, os efeitos adoecedores são vias muito prováveis ou quase inevitáveis. Diagnosticados com síndrome do pânico, ansiedade e depressão, muitos profissionais estão sendo medicalizados, mas é preciso escapar das medicalizações exageradas. A direção ético-política deve ser outra. Promover saúde no trabalho e evitar o adoecimento implica a criação de outros modos de organização e relação trabalhista. Qualquer tentativa de individualização ou medicalização do sofrimento psíquico, terá como efeito um aumento de adoecimento de profissionais.

O foco de combate precisa ser os modos autoritários de gestão presentificados quando se tenta silenciar trabalhadores/as. Nas diversas situações, a experiência do trabalho vê-se marcada por forte variação, o que gera novas modalidades de relação entre os pares.

Acompanhando tais modificações, toda sorte de sentimentos e emoções são produzidas, com destaque para insegurança ante os atuais modos de trabalhar, já que estão sendo exigidas habilidades diferentes das habituais, o que implica medo em relação ao presente e ao futuro e forte sensação de solidão.

Então, se a experiência do trabalho é uma atividade, é estar em ação, trabalhar implica microgestões, o que se faz cotidianamente. Tal experiência promove transformações à medida em que se coloca acento no uso de dispositivos digitais como nunca antes experimentamos. Trabalhar em tempos de pandemia tem se configurado como um contexto de alta pressão, uma vez que abala esferas já constituídas dos ofícios.

Trata-se de levar em conta que, em um momento como esse, as instâncias coletivas de proteção entre os trabalhadores/as podem tanto se fortalecer como se fragilizar, a depender dos espaços de fala, de escuta e de debate a respeito dos processos de trabalho experimentados.

As mudanças estruturais no emprego (saída de profissionais mais antigos e com maiores salários e entrada dos mais novos, com salários menores, por ex.) são mudanças que impactam os mundos do trabalho. Destaca-se, também, o mercado seletivo em termos de salários, quando homens em mesma função, ganham mais que as mulheres, em muitos casos.

Esse estado da arte nos convoca a afirmar esse aspecto universal da atividade humana, que é o de sempre envolver criação de normas para nossas ações em situações concretas. Os viventes (re)normatizam os ambientes que habitam e criam ao habitar, visando o enfrentamento das adversidades e infidelidades desses ambientes. Essas normas não podem ser reduzidas àquelas produzidas por aqueles que controlam e exploram o trabalho dos outros, mas, também, e são essas que queremos privilegiar e dar visibilidade, aquelas criadas pelos próprios trabalhadores/as como referência para o seu trabalho.

Estamos aludindo, portanto, a um tipo de saber que sempre se faz necessário em situação de trabalho, um saber que inclui o modo como a atividade humana configura quadros específicos, localmente definidos, fazendo desviar os caminhos habituais até então praticados.

E aqui se efetiva um fazer criador, uma potência normativa de dar passagem às diferenças e aos acontecimentos imprevisíveis com os quais nos deparamos em situações laborais. Esse movimento normativo implica uma capacidade de inventar estratégias de existência diante das situações inesperadas, que exigem reorganização de nossos territórios de vida-trabalho. A experiência da pandemia do Covid-19 pode ser um tempo oportuno para redimensionarmos nossos fazeres.

Enfrentar uma antipolítica implica afirmar a experiência coletiva que resiste e perdura na forma de um processo ininterrupto que cada trabalhador/a faz mover com seus pares. Ninguém recebe uma experiência pronta para ser usada; não há soluções infalíveis, externas à atividade laboral. Um gesto laboral está sempre mergulhado nos processos de compartilhamento e sofre intervenção dos conflitos e tensionamentos inerentes ao exercício do trabalho.

Por todos os lados surgem lives, podcasts, postagens, redes de pessoas que se juntam para ofertar escuta aos trabalhadores/as que se encontram sob pressão, entre outras iniciativas que voltam a atenção para o cuidado à saúde em tempos de pandemia. Individualmente, grupalmente, presencialmente ou à distância, todo esforço nessa hora é bem-vindo e é o que precisamos fazer.

Certamente, os/as trabalhadores/as estão criando estratégias de normatização tomando como fio condutor a indissociabilidade entre pensar-fazer-dizer-trabalhar. Vida que se confunde com saúde quando combatemos uma antipolítica que adoece. Perseguir uma vida que se faz por entre os enfrentamentos sistemáticos apresentados pelas infidelidades do viver implica visar uma vida que nos anima e que é potência, força, coletivo, política.

Contudo, ainda que a saúde no e pelo trabalho esteja relacionada a esse processo normativo e a toda sorte de esforços para fugir a tudo aquilo que tenta dominar a vida e controlá-la, não é incomum a sensação de que cada vez mais vivemos uma lógica de gerenciamento capitalista regida pela mão do mercado. Nesse cenário, a saúde de trabalhadoras e trabalhadores não será beneficiada se cada um/a assumir a responsabilidade por si mesmo/a.

Individualizados e despolitizados não seremos capazes de lidar com as “inexoráveis” pressões da vida, em especial nesse momento. Em tempos de ameaça ante o desconhecido, as coisas se desarrumam e parece que o chão fugiu. Nossas certezas e defesas psíquicas sofrem abalos e saem do lugar, justamente pelo sobressalto gerado pelo vírus.

Assim, cuidar da saúde de trabalhadores/as nesses tempos comporta, principalmente, o fortalecimento de coletivos que possam gerar potência em cada um/a de nós para driblar as forças que nos adoecem. Cuidar uns/as dos/as outros/as e do nosso trabalho é não enfraquecer nossas estratégias de (re)existência. Quando essas questões não nos perturbarem mais, quando não mais nos indagamos o que estamos fazendo de cada um/a de nós, se não recusamos as diferentes formas de submissão voluntária que muitas vezes se atualizam em nossas práticas, precisamos nos preocupar a respeito de nossa humanidade.

*Maria Elizabeth Barros de Barros é professora titular do Departamento de Psicologia, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Pós-doutorado em Saúde e Trabalho